Coraline e a Estranha Teia

by Ataualpa Pereira on 20/08/09 at 2:50 pm

Saudações!

coraline_04Nem só de artigos definidos e masculinos vive o Dado Mestre! Eis que mais alguns dados  unem forças conoco: Elara Leite, que falará um pouco sobre o universo do cinema contextualizado com o RPG. Boa leitura.

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Aviso: Este texto contém spoiler. Se não viu o filme e não gosta de saber os detalhes, não leia.

Na mesma ambientação de A noiva cadáver e O estranho mundo de Jack, Coraline traz em si uma atmosfera muito mais densa, tendo levado, inevitavelmente, a fama de “animação para crianças chorarem”. Sem dúvidas, não é uma animação para crianças com menos de dez anos. Mas isso não vem ao caso.

Coraline mergulha em um mundo de superstições e fatos aparentemente surreais a partir da mudança para uma casa estranha. Seus pais estão sempre preocupados demais com seus trabalhos pessoais para dar atenção a ela.

Nas primeiras cenas, Coraline é apresentada a um estranho garotinho, cujo nome é Wybe, que relata estar surpreso que sua avó, a dona da casa, tenha alugado o local para uma família com criança, algo que normalmente não aconteceria. Ele explica que não podia entrar na casa, pois sua avó ficaria furiosa.

O novo amigo de Coraline envia, embrulhada em jornal, uma boneca-sósia dela, com a qual a garota começa a brincar. Nas suas “explorações de terreno”, a protagonista encontra, na sala-de-estar, uma pequena porta sob o papel de parede. Depois de pedir insistentemente à mãe que abra a porta, Coraline descobre que, para sua frustração, do outro lado só há tijolos bloqueando o que outrora fora uma passagem.

O primeiro parênteses vem daí. A presença de uma porta que leva a um mundo de possibilidades é extremamente explorada em obras como Alice no País das Maravilhas e em Van Helsing, para citar apenas dois exemplos. No primeiro caso, está uma personagem entediada - Alice - que acaba se encantando com um mundo surreal, enquanto no segundo, é através de uma porta nada convencional que se chega ao castelo selado do maior vampiro da Pensilvânia.

As bizarrices começam quando Coraline “sonha” que consegue passar pela porta e, do outro lado, encontra uma casa aparentemente igual à que ela está morando com seus pais, mas, há algo estranho no ar. Ao cruzar a cozinha, a personagem sente um agradável aroma de comida, fato que a deixa confusa, já que é noite, horário pouco habitual para se cozinhar (e sua mãe é uma péssima cozinheira). Todavia, adentrando ao local, percebe cômodos limpos e iluminados, diferenciados da atmosfera original.

A mãe de Coraline vira-se e a chama para jantar. Seus olhos são como botões de roupa, fato que a protagonista percebe posteriormente ser o normal entre os habitantes daquele mundo paralelo. “A outra mãe”, como a personagem de olhos de botão se auto-intitula, é amorosa, cozinha para ela e lhe faz todos os gostos, enquanto sua mãe real, pelo menos na visão de Coraline, não se importa com ela.

CT.LAIKA

As visitas a esse mundo distorcido se tornam mais constantes à medida que Coraline se decepciona com sua vida real, algo que pode ser comparado com a fuga da realidade também realizada em Nárnia, guardadas as devidas proporções, obviamente. Entretanto, o fato é que Coraline embarca em seu sonho, onde tudo é mais colorido, até descobrir que as coisas não eram tão boas assim. Um curioso gato falante, no mundo real o bicho de estimação de Wybe, a ajuda a desvendar a verdade.

No ápice do filme, a “outra mãe” de Coraline a convida a morar em seu maravilhoso mundo, sendo necessário para isso apenas que ela costurasse botões em seus olhos, assemelhando-se aos habitantes daquele local. Ela não aceita, momento em que começa o pesadelo. Ela tenta novamente dormir para acordar pela manhã no mundo real, modo como normalmente ela conseguia se transportar de um local para o outro, mas dessa vez, nada acontece. Ela acorda no mesmo lugar.

Sua “outra mãe” a castiga, jogando-a para dentro de um espelho, no qual descobre espíritos de crianças que tinham sido vítimas das artimanhas da falsa mãe. É interessante traçar um paralelo com algumas idéias provindas do RPG. Primeiramente, é possível passar ao mundo espiritual em Lobisomen, por exemplo, atravessando uma superfície reflexiva. Em Changelling, também há uma relação com espelhos, embora não tenha domínio desse roleplay. Em D&D, um druida de nível um pouco mais elevado pode espionar outros ambientes utilizando superfícies reflexivas.

Voltando a Coraline, com a ajuda do Wybe correspondente no mundo posterior, ela consegue fugir mas, ao voltar para o mundo real, descobre que seus pais tinham sido raptados pela sua mãe maligna, o que motiva a protagonista a voltar com o intuito de resgata-los.

Interessante é que, o principal argumento do filme para as atitudes da “outra mãe” de Coraline é a vontade do ser maligno de ter algo para amar, possuir, tocar, dar vida. A intrépida personagem principal começa, então, um jogo com a outra mãe, em busca de seus pais e da libertação do espírito das crianças prisioneiras. A cada etapa vencida, o mundo surreal vai se desfazendo em um cenário cinzento e sem vida, enquanto Coraline vai, aos poucos, descobrindo o que, na verdade, era sua outra mãe.

Uma aranha. A outra mãe de Coraline, ao ser vencida (eu avisei que tinha spoiler), se transforma em uma grande aranha, que tenta aprisionar a garota em sua teia. Aqui, mais um paralelo com o RPG. Na lenda garou da criação do mundo, Wild era a força aleatória, o verde, a cor, a essência selvagem, o natural, aqui representada por Coraline, enquanto Weaver é a aranha padrão, criadora do mundo táctil, urbano, padronizadora dos excessos, aqui “a outra mãe” de Coraline. Em dado momento da lenda, a Weaver enlouquece e tenta aprisionar a Wild, semelhante ao que acontece no mundo surreal do longa-metragem em questão.

Assim é Coraline, uma sopa de referências rpgísticas e cinematográficas, um prato cheio para análises psicológicas e sociológicas. Claro, o que aqui foi dito é só a ponta do iceberg, vale a pena assistir e tirar suas próprias conclusões.

Veja o Trailer oficial do Filme:

Mais sobre a autora doa artigo.

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Elara Leite

Elara Leite vive em João Pessoa, Paraíba e  é jornalista, poetisa e claro, jogadora de RPG. Possui outros materiais publicado no E-zine Távola RPG. Caso queira seguí-la no Tiwtter, clique aqui.