Espiões na Mesa - Rolagens secretas, paranóicas e envenenadas
by Ataualpa Pereira on 01/09/09 at 1:37 am
Então, não vamos falar de jogadores chatos, mas sim de Espionagem como tema nos nossos jogos. Apesar da brincadeira no nome do artigo, houve uma época que ela foi uma coqueluche na literatura, influenciada pela história moderna pós-guerra. E muito embora tenha sido explorada exageradamente sob esta ótica, a espionagem é uma prática tão antiga quanto o ato de confidenciar um segredo. Numa pesquisa rápida pela internet, você descobrirá relatos de incidências até mesmo na antiguidade, datando inclusive do Egito antigo.
Oficialmente, o primeiro serviço secreto foi instituído no governo de Luis XIV, “o rei sol”, que governou a França entre 1643 e 1715. Estamos falando de um país absolutista cujo monarca se auto-afirmava como o Estado. Ou seja, ninguém mais que uma nação (leia: o rei), usaria de todos seus poderes e influência para obter segredos de seus inimigos e manter sua posição de poder.
Contudo, por mais antiga possa ser, a espionagem ganhou grande notoriedade em tempos mais modernos, graças a romancistas que viveram à epoca das crises políticas internacionais tirando daí sua inspiração. Aliás, Ian Fleming, auto de James Bond, também fez parte da inteligência britânica. Outros autores do Pós-Guerra (e também Guerra Fria) inspiraram os clássicos como Identidade Bourne. Temos também jogos como Metal Gear Solid, Rainbow Six e Call of Duty, com tramas próprias bebendo direto da mesma fonte.

Logicamente que, como tantos exemplos interessantes na literatura, cinema e quadrinhos, não há como negar que jogar histórias aprofundadas nessa temática deve ser bem interessante. Aliás, é bem provável que muitos jogadores mais antigos tenham experimentado algo do tipo, nas crônicas peçonhentas de Vampiro: A Máscara, da White Wolf, ou nos tupiniquins Trevas e Invasão, publicados pela editora Daemon. Na verdade, talvez por coincidência, estes jogos de RPG com temáticas mais adultas ou obscuras costumam colocar os jogadores sob paranóia, um clima perfeito a ser explorado pela espionagem.
Se és um mestre do tipo que gosta de jogos mais adultos, o maniqueísmo do D&D pode se tornar dramático. Primeiro porque o jogo dificilmente assume que todos os heróis seriam espiões, depois eles poderiam ser forçados a se infiltrar numa facção maligna e praticariam atos medonhos.
É que jogos de espionagem deveriam envolver conflitos morais, mentiras, traição e outros meios ainda piores de atingir o inimigo indiretamente. Os jogadores possivelmente terão personagens que fogem do estereótipo de heróis, para adentrar num estilo menos extremista como tradicionalmente vemos no D&D. Entretanto nada impede que você, mestre, projete uma aventura neste estilo, basta planejar com cuidado e definir papéis importantes para cada jogador. Bom mesmo será ver os jogadores entrando no clima, montando agentes duplos, assassinos de aluguel, experts em algum tipo de tecnologia ou magia, disposto a fazer qualquer coisa para manter a identidade, pois normalmente assim faziam os agentes duplos quando tinha sua lealdade testada.
Então, além do James Bond, existem outras idéias bacanas de espionagem?
Claro. Primeiro, se você gosta da literatura do gênero, inspiração não falta. Mas se você busca idéias rápidas, aqui vão algumas que, apesar do clichê, podem auxiliar nossa imaginação.
Agente Duplo – Os personagens podem se infiltrar numa facção e fingir trabalhar para ela, enquanto na verdade fornecem dados para o inimigo. Contudo à media que a trama avança um conflito pode surgir, principalmente com ambos os lados se mostrando úteis ou cruéis para manter a lealdade de seus membros.

O futuro do Estado depende de Você – Alguém politicamente perigoso precisa ser morto urgentemente, pessoas morreram misteriosamente ou mesmo correm risco de morte. Como não se lembrar da imagem quase folclórica de figuras como Hitler, Mussolini ou mesmo Getúlio Vargas?
A sina de Dusko Popov, o James Bond – Ideal para aventuras onde os personagens são espiões de renome. Por exemplo, o iugoslavo Dusko Popov contava com uma equipe de espiões que sequer podiam confidenciar informações pessoais, comunicando-se apenas por codinomes como “Tate”, “Treasure”, “Brutus” e “Garbo”. Popov e sua equipe alertaram o governo americano sobre Pearl Harbor, mas pode-se dizer que foi estranhamente competente, portanto levantou suspeita…
Missões isoladas de espionagem onde cada personagem é uma célula vital para a operação pode render sessões memoráveis de jogo.
A “Arma X” - O inimigo possui uma arma secreta ou a fórmula para fabricá-la, mas como ter certeza disso? Um grupo de espiões entra em cena com a missão de descobrir do que se trata o tão protegido segredo do inimigo. É claro que vocês estão se lembrando da Guerra Fria. Quem saberá quantos espiões foram necessários para fomentar a corrida armamentista?
“Swordfish” – Que tal um pouco de tecnologia e pirataria virtual em seus jogos? Tramas que envolvem roubo de senhas, sistemas de segurança, sedução e trabalho em equipe podem render tardes divertidíssimas.

Quem diabos é Bourne? – Ouso dizer que a Trilogia Bourne seja a melhor obra do gênero já adaptada para o cinema. Pelo menos no gênero de ação. Para quem não conhece, trata-se do livro de Robert Lundlum, onde um ex-agente secreto perde a memória durante um tiroteio e quando acorda possui apenas algumas pistas sobre seu passado, incluindo um chip implantado no próprio abdômen.
Claro que para conduzir um jogo nesse nível seria necessário um preparo meticuloso, com uma trama bem amarrada, trilha sonora à altura, fotos de locais famosos e armas, dentre outras coisas.
O outro lado da moeda - Ao invés de espiões, os personagens devem identificar quem está coletando informações do grupo que fazem parte. Talvez aquele PdM tão prestativo que vem ajudando eles nos últimos tempos é na verdade o traidor procurado.
Enfim, existem possibilidades infinitas para jogos de espionagem e o melhor de tudo é que você não precisará de livros específicos para preparar suas aventuras. É possível adaptar tudo isso para jogos de fantasia medieval ou usar qualquer RPG, embora alguns sejam abrangentes o suficiente para aventuras modernas ou futuristas, como GURPS, Era do Caos, Invasão, D20 Moderno, 3D&T, Mutantes & Malfeitores, Star Wars RPG e até mesmo o antigo Alternity. Só tomem cuidado para não vazar informação demais para seus jogadores.
Filmes Recomendados: O Chacal, O Jardineiro Fiel, Inimigo do Estado, A Confissão (Esse aqui me lembra Kafka), Cassino Royale, A Cilada, Jogos de Espiões, Infiltrados (obviamente); e, claro, todos do James Bond.
Livros: Além dos citados no artigo, recomendo o fodástico “Shibumi”, do Trevanian e o confuso “Arte da Guerra” de Sun Tzu.







