Design de Campanha – A Trajetória do Herói - (Parte 1)
by Ataualpa Pereira on 14/10/09 at 7:47 pm
Olá 1d6 leitores do DM! Poisé gente, há um bom tempo o blog não é atualizado, mas em breve teremos novidades por aqui. Por hora, um artigo que há mais de 1 mês estava inacabado. Boa leitura.
O herói é a figura arquetípica mais bem aceita em qualquer manifestação humana… (ok, falei bonito agora); Todos nós, não importando o gênero ou idade, gostamos da idéia de ir além de nossas capacidades, de fazer coisas além do que nos limita. Esse é um dos méritos que faz os jogos, o cinema, a literatura e as brincadeiras infantis serem tão empolgantes. Praticamente em qualquer tema, o que moverá nosso entusiasmo é a possibilidade de realizar grandes feitos, solucionar mistério e vencer desafios que teoricamente são invencíveis.
Agora pare e pense. Análise seu jogo predileto sem essa figura, seja ela corrupta, morta-viva ou devotada a destruir o mal. E aí?
Sim, ele está lá, mascarado, cheio de dramas, ávido por combate e poder, mas está lá. Porque para ser um herói, não necessariamente um personagem precisa fazer o bem, mas sim ser excepcional e disposto a superar desafios além do comum.
É bem verdade, talvez até uma regra, que a maioria dos mestres ao projetar uma campanha, pensa primeiramente nos monstros e vilões de sua história. Gasta horas folheando os guias em busca de zumbis turbinados, anarquistas do Sabá ou magos tecnocratas, e vai deixando a enredo meio de lado pra amarrar tudo durante o jogo. Não que seja errado, mas talvez seja interessante começar por outro lado: o personagem jogador.
Até mesmo porque, o que mais poderia entusiasmar um jogador com sua trama, do que realmente fazê-lo o elemento mais importante? Por mais estranho que pareça, é até mais fácil encaixar monstros e vilões numa campanha, depois de pensar em cada personagem separadamente e como será a trajetória deles.
Exato. A responsabilidade de fazer com que os personagens se tornem grandiosos está nas mãos do mestre, tão só e unicamente. É ele que, assim como um bom roteirista, criar arcos, argumentos e oportunidades para os jogadores interpretarem seus respectivos heróis. O problema é, nem sempre os mestres avaliam assim seus jogos, acabam projetando jogos ruins e pouco empolgantes, onde você joga por falta de opção.
Opa, mas espere um pouco…
Fazer um simples aldeão se tornar um herói, não significa conceder bolinhas ou números a mais na planilha. Vamos com calma neste ponto também, pois como dito, o que ele precisa ser é excepcional, mas não um deus. Ora, se ele não é um ser comum tão pouco um deus, o herói está entre esse dois extremos. E qualquer semelhança com Hércules, não é mera coincidência. Apesar de o herói aparecer em diversas culturas, ainda é dos gregos o exemplo mais conhecido.
E por falar em exemplos, como nosso foco é falar da trajetória dos heróis em suas histórias, melhor começar do básico. É claro que existem dezenas de estudos sobre o Herói, Joseph Campbell analisa os inúmeros mitos no Herói de Mil Faces, Vladmir Propp fez um copilado sobre o herói dos contos de fadas e Carl Jung também fala sobre os arquétipos mitológicos. São estudos profundos, mas bem interessantes, se você gosta de cinema e quadrinhos. Ajuda a entender a “genialidade” de certas obras.
Mas estamos falando de RPG, portanto não precisamos de nada tão rebuscado, no máximo esquematizado de forma a orientar nossas campanhas, atribuir um pouco mais de beleza e qualidade às histórias narradas. De forma resumida, mas sem tentar pregar uma regra ou fórmula mágica para mestres, acredito que a Trajetória do Herói no RPG poderia se encaixar nesse esquema:

1 – PARTIDA: O chamado. Nosso herói deixa o lar por algum motivo, seja uma missão a ele atribuída, ou busca de conhecimento. Anteriormente, você mestre, pode ter preparado ou incluído outras coisas, mas a história verdadeira só começa para o personagem, quando ele decide abandonar sua condição atual em busca de algo. Exemplos: Neo (Thomas Anderson) indo de encontro às píluas Matrix, ou Bruce Wayne e seu exílio em Batman Begins.
2 – PRIMEIRA PROVAÇÃO: Normalmente o herói é testado uma primeira vez antes de verdadeiramente começar sua jornada. É justamente quando ele atrairá mais atenção do que imaginava, quer seja do vilão ou mentor. Exemplos: Anakin Skywalker na Pod Race da Ameaça Fantasma.
3 – INTERDIÇÃO: O vilão é apresentado. É o primeiro contato com o antagonista, não precisa ser algo direto, embora anuncie a tempestade que vem pela frente. Normalmente essa interdição deixa uma marca no personagem, talvez uma cicatriz, morte de um ente querido ou ambos… Exemplo: Bruce Wayne perdendo os pais.

4 – PODER: Pode ocorrer junto com o tópico anterior. O herói se deparará com poderes não possuídos ainda, seja numa demonstração do mentor, ou mesmo de um vilão mais poderoso. Logo ele fica sabendo que vai precisar aprender muito mais até confrontar o inimigo. Exemplos: Neo e os agentes em Matrix ou Anakin Skywalker, embora poderoso, foi negado no Conselho Jedi.
5 – JORNADA: Finalmente a grande busca se inicia. É aquela grande aventura (ou aventuras) da campanha, onde no final o personagem estará muito mais amadurecido (XP!). Exemplo: Neo após o Filme 1, em Matrix.
6 – CONFRONTO: Principal provação dos personagens, onde eles colocarão em prática todo o aprendizado e recursos. Exemplos: Ainda em Matrix, que usa bem os arquétipos do herói, Neo se tornou o salvador e vai direto ao seu destino.
7 – FIM DO MAL e RETORNO: Os feitos do vilão são reparados e o personagem retorna para colher os louros da benfeitoria. Nem sempre ele será reconhecido à primeira vista, ou reconhecido como salvador, mas alguma coisa mais impactante deveria acontecer para enaltecer essa jornada. Exemplo: Anakin Skywalker, após ajudar o próprio filho contra o Darth Sidious, retorna para a luz e torna-se um espírito Jedi.
Ufa, acho que é isso. Para uma primeira parte, acho que falei até demais. Se você tiver uma sugestão ou dica para incrementar o esquema acima, sinta-se à vontade. No próximo artigo, vamos falar de alguns NPC’s arquetípicos ligados diretamente à trajetória dos heróis.
Grande abraço e até a próxima!








